• “Agonorexia” vira alerta nas redes e expõe riscos do uso indiscriminado de canetas emagrecedoras

    Medicamentos à base de GLP-1 reduzem o apetite, mas exigem acompanhamento médico para evitar perda excessiva de massa muscular.
    Medicamentos à base de GLP-1 reduzem o apetite, mas exigem acompanhamento médico para evitar perda excessiva de massa muscular.

    O crescimento acelerado do uso de medicamentos à base de GLP-1 para emagrecimento trouxe um novo termo para o debate público: “agonorexia”. A palavra, que viralizou nas redes sociais, combina “agonista” com “anorexia” e vem sendo utilizada para descrever a perda excessiva de apetite provocada pelas chamadas canetas emagrecedoras.

    Apesar da popularização do termo, especialistas alertam que ele não é um diagnóstico médico oficial. O fenômeno descrito como “agonorexia” está relacionado ao efeito farmacológico de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, enquanto a anorexia nervosa é um transtorno psiquiátrico complexo, com raízes emocionais e cognitivas profundas.

    A semelhança entre os dois quadros se limita à baixa ingestão alimentar. A origem, no entanto, é completamente diferente.

    O que é, de fato, a chamada “agonorexia”?

    Os análogos de GLP-1 atuam diretamente no hipotálamo e em áreas do cérebro associadas ao controle da saciedade e do sistema de recompensa. Essas substâncias imitam o hormônio GLP-1, responsável por regular o apetite, retardar o esvaziamento gástrico e melhorar o controle glicêmico.

    Na prática, o paciente sente menos fome e se satisfaz com porções menores. O problema surge quando essa redução de apetite se torna extrema, levando a ingestão calórica muito abaixo do necessário para manter funções básicas do organismo.

    É nesse ponto que o termo “agonorexia” passou a ser usado de forma informal: para caracterizar situações em que o indivíduo praticamente perde o desejo de comer após iniciar o uso das medicações.

    Contudo, ao contrário da anorexia nervosa, não há necessariamente distorção da imagem corporal ou medo patológico de ganhar peso. Trata-se de um efeito biológico direto da medicação.

    Diferença crucial: biologia versus transtorno psiquiátrico

    A anorexia nervosa é classificada como transtorno alimentar no DSM-5 e envolve sofrimento psíquico significativo. O paciente apresenta medo intenso de engordar, percepção distorcida do próprio corpo e comportamentos restritivos severos.

    Já o quadro associado ao uso de análogos de GLP-1 decorre de uma modulação hormonal induzida. O cérebro recebe sinais mais intensos de saciedade, diminuindo o impulso alimentar.

    A confusão entre os dois conceitos pode gerar estigmatização ou interpretações equivocadas sobre pacientes que utilizam essas medicações de forma adequada.

    Riscos do uso sem acompanhamento

    Embora os medicamentos tenham eficácia comprovada no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, o uso indiscriminado — muitas vezes motivado por fins estéticos — acende um alerta.

    Quando a dose não é ajustada gradualmente ou quando o paciente não recebe acompanhamento nutricional adequado, podem surgir consequências como:

    • perda acentuada de massa muscular;
    • fraqueza generalizada;
    • queda de cabelo;
    • deficiência de ferro e vitamina B12;
    • redução de albumina;
    • risco de sarcopenia.

    A perda de peso rápida nem sempre significa perda saudável. Em muitos casos, parte significativa do peso eliminado corresponde à massa magra, o que compromete o metabolismo e aumenta o risco de efeito rebote.

    Monitoramento psicológico também é essencial

    Além do acompanhamento médico, especialistas defendem avaliação psicológica durante o tratamento. Isso porque a redução do apetite pode, em alguns casos, desencadear comportamentos restritivos problemáticos.

    Pacientes podem começar a evitar eventos sociais que envolvam comida ou desenvolver uma relação excessivamente rígida com a alimentação. O risco não está no medicamento em si, mas na ausência de orientação profissional adequada.

    Enquanto a anorexia nervosa exige tratamento psiquiátrico estruturado, a chamada “agonorexia” tende a ser revertida com ajuste de dose e reorganização alimentar.

    O objetivo não é parar de comer

    O consenso entre endocrinologistas é claro: o propósito das canetas emagrecedoras não é eliminar o apetite, mas restaurar a regulação fisiológica da fome.

    O tratamento ideal envolve:

    • adequação da dose;
    • ingestão proteica suficiente;
    • prática de exercícios de força;
    • monitoramento de exames laboratoriais;
    • acompanhamento contínuo.

    Em vez de estimular a cultura do “quanto menos comer, melhor”, o foco deve estar no equilíbrio metabólico.

    A responsabilidade no debate público

    A viralização do termo “agonorexia” evidencia como discussões médicas complexas podem ser simplificadas nas redes sociais. Embora o alerta sobre possíveis excessos seja válido, é fundamental diferenciar efeitos farmacológicos de transtornos psiquiátricos estruturados.

    O uso de medicamentos como Ozempic e Wegovy exige prescrição e monitoramento. Quando bem indicados, esses fármacos podem transformar a saúde metabólica de pacientes com obesidade.

    O risco está na banalização, na automedicação e na busca por emagrecimento rápido sem supervisão profissional.

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