
Dona Hermínia Cruz, de 49 anos, acorda cedo todos os dias com um som que já virou parte da rotina: a água batendo nas estacas da palafita onde mora no bairro da Liberdade, em São Luís, próximo à avenida do Reggae. Mãe solteira de três filhos, ela divide o tempo entre os afazeres de casa e a preocupação constante com a saúde da família.A história de dona Hermínia escancara uma realidade ainda comum no Maranhão, estado em que o saneamento básico segue sendo um desafio. “Quando a maré sobe ou quando chove, vem todo tipo de lixo e sujeira. A gente fica com medo de adoecer”, conta.
Segundo o biomédico e professor do IDOMED São Luís, Carlos Drielson, o problema vai muito além da infraestrutura. “O Maranhão ainda enfrenta um déficit importante de saneamento. Milhares de pessoas não têm acesso adequado à água tratada e ao esgoto, o que impacta diretamente na ocorrência de doenças e na sobrecarga do sistema de saúde”, explica.
Os números dão uma dimensão mais exata da crise: o Maranhão segue entre os últimos do ranking brasileiro quando o assunto é saneamento. Embora a média nacional de acesso a serviços de abastecimento de água chegue a 84,1%, apenas 53,9% da população maranhense pode contar com o mesmo benefício. Quando o assunto é esgotamento sanitário, a situação é ainda mais crítica: só 29,9% contam com coleta de esgoto, bem abaixo dos 56,7% registrados no restante do país.
Os dados são do Instituto Trata Brasil e do Sistema Nacional de Informações em Saneamento. Na capital, o cenário também preocupa: São Luís aparece entre as piores colocadas no ranking nacional de saneamento, ocupando a 94ª posição entre as 100 maiores cidades brasileiras.
Quem vive sem saneamento sente os efeitos desse problema todos os dias. A água que chega nem sempre é confiável, e muitas famílias precisam improvisar para garantir o consumo. É nesse cenário que doenças relacionadas à falta de saneamento acabam se tornando comuns. Casos de diarreia, hepatite A e verminoses são frequentes, todos ligados à contaminação da água e às condições precárias de higiene. Na prática, isso significa que histórias como a de dona Hermínia, infelizmente,ainda são a regra.
Crianças e idosos acabam sendo os mais afetados nesse cenário. “As crianças ainda estão desenvolvendo o sistema imunológico, o que as torna mais vulneráveis. Já os idosos apresentam o sistema imunológico mais fragilizado, aumentando o risco de infecções”, afirma Carlos Drielson.
Sem solução estrutural imediata, o especialista destaca que pequenas ações no dia a dia podem contribuir para reduzir os danos. “Algumas medidas simples precisam ser adotadas pela população para amenizar os problemas causados pela falta de saneamento básico, como filtrar a água, usar duas gotas de hipoclorito a 2,5% para cada litro de água ou ferver a água antes do consumo. O uso de fossa séptica adequada e descarte de lixo em local correto pode reduzir o risco de doenças, mesmo sem infraestrutura ideal”, completa Carlos Drielson.
Além disso, o professor reforça que o problema exige uma resposta mais ampla do poder público. “Sem investimento contínuo em saneamento básico, o ciclo de doenças vai se perpetuar, principalmente nas áreas mais vulneráveis. Não é apenas uma questão de infraestrutura, é uma questão de saúde pública e dignidade humana”, alerta Carlos Drielson.
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