• Crianças desaparecidas em Bacabal: buscas entram em nova fase com equipes reduzidas e foco investigativo ampliado

    As buscas por Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desaparecidos desde o início de janeiro no quilombo São Sebastião dos Pretos, em Bacabal, chegaram a uma nova fase nesta semana. Após quase 20 dias de operações intensas, as autoridades confirmaram que os trabalhos continuam, porém com equipes reduzidas, estratégia que acompanha a evolução das investigações da Polícia Civil. A informação foi repassada durante coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (22), um dia antes de o caso completar 20 dias sem respostas.

    Segundo os órgãos de segurança, a mudança não significa recuo, mas readequação operacional. A partir de agora, as ações passam a ser mais direcionadas, com base em dados colhidos ao longo das buscas e nos elementos reunidos no inquérito policial, que segue em andamento. Nenhuma hipótese foi descartada até o momento.

    Enquanto as autoridades ajustam estratégias, o sentimento que predomina na comunidade é o da angústia. A avó das crianças, Francisca Cardoso, resumiu a dor de quem aguarda qualquer notícia concreta.
    “Só tristeza que nós temos aqui. A gente espera qualquer resposta e não tem resultado de nada. Estão com essa busca todinha aí na nossa comunidade, e nós não temos resultado nenhum”, desabafou.

    Força-tarefa mobilizou milhares de pessoas e tecnologia de ponta

    Desde o desaparecimento das crianças, foi montada uma força-tarefa de grandes proporções, envolvendo forças de segurança do Estado, a Prefeitura de Bacabal, além do Exército Brasileiro, da Marinha do Brasil e de Corpos de Bombeiros de outros estados, como Pará e Ceará.

    Ao longo das últimas semanas, mais de seis mil pessoas participaram direta ou indiretamente das operações, atuando em áreas de mata fechada, trilhas, igarapés, lagos e margens do Rio Mearim. Toda a região próxima ao quilombo foi minuciosamente vasculhada, com o uso de cães farejadores, drones com sensores termais, aeronaves e equipamentos especializados.

    O Exército Brasileiro deslocou 24 militares especialistas em operações de selva e rastreamento, levando à comunidade equipamentos específicos para buscas em terrenos de difícil acesso. A atuação dos militares foi concentrada principalmente em áreas de mata densa, onde o deslocamento humano é mais complexo.

    Buscas no Rio Mearim avançaram quase 20 quilômetros

    Além das buscas terrestres, o foco também se voltou para o Rio Mearim, onde foram realizadas operações aquáticas e subaquáticas. Ao todo, cerca de 19 quilômetros do rio foram percorridos pelas equipes.

    Desse total, cinco quilômetros passaram por análise detalhada com o uso do side scan sonar, tecnologia operada pela Marinha do Brasil, capaz de identificar objetos e alterações no leito do rio com alto nível de precisão. A partir dessas varreduras, 11 pontos de interesse foram identificados e repassados às mergulhadoras do Corpo de Bombeiros Militar, responsáveis por checagens diretas nos locais indicados.

    Apesar da complexidade e do volume de áreas analisadas, nenhum vestígio conclusivo foi encontrado até agora que leve ao paradeiro das crianças.

    Base de apoio será concentrada no quilombo

    Durante a coletiva, as autoridades informaram que, das duas bases operacionais montadas no início da operação, apenas uma será mantida: a base instalada no quilombo São Sebastião dos Pretos, local onde Ágatha e Allan moravam e onde foram vistos pela última vez.

    A decisão visa otimizar recursos, concentrar esforços e manter presença constante no ponto central da investigação. A base continuará funcionando como apoio logístico e ponto de articulação entre as equipes envolvidas.

    Uso de alerta em redes sociais amplia alcance das buscas

    Outro ponto destacado pelas autoridades foi o uso de ferramentas digitais para ampliar o alcance das buscas. Em casos de desaparecimento, segue-se um protocolo nacional, que inclui o acionamento do Amber Alert, sistema voltado especialmente para crianças desaparecidas.

    Por meio desse mecanismo, fotos e informações das crianças são divulgadas em plataformas da Meta, como Instagram e Facebook, alcançando um raio de até 200 quilômetros. O objetivo é mobilizar a população, estimular denúncias e acelerar a chegada de informações que possam contribuir com as investigações.

    Autoridades pedem cautela e combatem desinformação

    Participaram da coletiva o secretário de Estado da Segurança Pública, Maurício Martins, o prefeito de Bacabal, Roberto Costa, o capitão dos Portos do Maranhão, Ademar Augusto Simões Júnior, e o tenente-coronel João Carlos Duque, comandante do 24º Batalhão de Infantaria de Selva (24º BIS).

    Maurício Martins fez um apelo à população, pedindo cautela na disseminação de informações não confirmadas. Segundo ele, comentários e especulações sem embasamento, especialmente nas redes sociais, podem atrapalhar o andamento das investigações.

    O secretário explicou que uma comissão especial de delegados, formada por profissionais de São Luís, atua em conjunto com a delegada titular de Bacabal, analisando minuciosamente cada informação levantada desde o início do caso.

    Inquérito ultrapassa 200 páginas e segue em expansão

    O secretário informou ainda que o inquérito policial, instaurado logo após o desaparecimento, já ultrapassa 200 laudas. O documento reúne depoimentos, laudos periciais, relatórios técnicos, registros das buscas e análises feitas pelas equipes envolvidas.

    Mesmo com o volume expressivo de informações, as investigações seguem sem prazo para encerramento. Novas diligências da Polícia Civil devem ser intensificadas em pontos indicados ao longo da apuração, incluindo áreas que surgiram a partir de cruzamento de dados e novos relatos.

    Pais não são automaticamente tratados como suspeitos, esclarece SSP

    Diante de especulações nas redes sociais sobre um possível envolvimento dos pais das crianças, Maurício Martins fez questão de esclarecer o procedimento adotado pela Polícia Civil.

    Segundo ele, chamar familiares para novos depoimentos não significa, necessariamente, que estejam sendo tratados como suspeitos.
    “Nós trabalhamos de forma profissional. Pessoas chamadas para depor ou esclarecer pontos específicos não são automaticamente apontadas como envolvidas. Elas são ouvidas porque os delegados entenderam ser necessário esclarecer determinadas situações”, afirmou.

    O secretário reforçou que todos os procedimentos seguem critérios técnicos e legais, respeitando os direitos das pessoas envolvidas.

    Primo de oito anos participa das buscas com autorização judicial

    Um dos episódios mais sensíveis da investigação envolveu a participação de um menino de 8 anos, primo de Ágatha e Allan. Com autorização da Justiça do Maranhão, ele participou das buscas acompanhado por policiais e por equipes da rede de proteção à infância.

    O menino indicou os últimos trajetos que percorreu ao lado dos primos até o momento em que foi encontrado. De acordo com as autoridades, o relato confirmou informações que ele já havia prestado anteriormente à Polícia Civil e aos psicólogos responsáveis pelo acompanhamento.

    A participação ocorreu sob cuidados rigorosos, respeitando protocolos de proteção emocional e psicológica da criança.

    Comunidade segue em vigília e à espera de respostas

    No quilombo São Sebastião dos Pretos, o clima segue de apreensão e esperança. Moradores acompanham diariamente as movimentações das equipes e mantêm vigílias informais, na expectativa de qualquer novidade.

    “A gente só quer saber o que aconteceu com as crianças”, resume uma moradora da comunidade, refletindo o sentimento coletivo.

    Enquanto isso, as forças de segurança reforçam que o caso segue sendo tratado com prioridade máxima, e que todos os esforços possíveis continuam sendo empregados para esclarecer o desaparecimento de Ágatha Isabelly e Allan Michael.

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