
A cena de Maria Alice, filha de Virginia Fonseca e do cantor Zé Felipe, fazendo o pedido para acompanhar o pai ao shopping e, com naturalidade, avisando que “vou tirar foto com todo mundo”, chamou a atenção nas redes sociais. Enquanto muitos foram tomados pela fofura da cena, especialistas em saúde mental e pediatria alertaram para os possíveis efeitos de uma infância vivida sob os holofotes. A frase da pequena Maria Alice não apenas ilustra sua familiaridade com o mundo da fama precoce, mas também expõe o potencial impacto psicológico dessa exposição constante.
Maria Alice, que já vive a visibilidade proporcionada por seus pais influenciadores e figuras públicas, evidencia uma realidade cada vez mais comum: crianças crescendo sob os holofotes, com a internet e as redes sociais moldando suas experiências de vida desde muito cedo.
Fama precoce e identidade: o risco para a formação emocional
A psiquiatra Jessica Martani explicou que a exposição constante desde cedo pode gerar efeitos silenciosos e significativos para o desenvolvimento da identidade e da autoestima infantil. Ela destaca que a infância é um período crucial para que a criança desenvolva uma identidade autêntica e saudável. Quando a criança cresce sendo observada, elogiada ou criticada por um grande público, ela pode começar a se perceber mais a partir do olhar externo do que de seus próprios sentimentos.
“Quando a criança é constantemente observada, ela pode começar a se comparar com o que os outros esperam dela, o que pode aumentar o risco de ansiedade, medo de errar e dificuldades para construir uma identidade autônoma e sólida”, alerta Martani.
O fenômeno de crianças sendo constantemente expostas nas redes sociais e nos meios de comunicação levanta questões sobre como esse processo afeta sua capacidade de desenvolver uma personalidade própria longe do julgamento alheio.
O impacto da “fama” na infância: mais que um reflexo, uma responsabilidade precoce
Para a pediatra Renata Castro, o problema não está em episódios pontuais de exposição, mas na normalização dessa realidade. “Quando a criança começa a entender que precisa estar disponível para fotos, vídeos e interações públicas, ela começa a assumir responsabilidades emocionais que não correspondem à sua idade. Ela deixa de ser apenas uma criança e passa a ocupar um lugar de ‘personagem’.”
Esse fenômeno de antecipação da responsabilidade emocional pode levar a um desgaste psicológico precoce e uma pressão que as crianças não estão preparadas para suportar. O desejo de agradar, de sempre aparecer bem, pode afetar a autoconfiança e autonomia emocional de forma negativa.
A exposição digital: riscos e consequências duradouras
A prática conhecida como “sharenting” (termo usado para descrever quando os pais compartilham frequentemente a rotina dos filhos nas redes sociais) também foi destacada por Jessica Martani como uma prática que pode ter consequências duradouras. A psiquiatra alerta para os riscos de uma exposição permanente nas plataformas digitais, especialmente quando a criança não pode consentir sobre a exposição de sua vida.
“A internet cria um histórico permanente de uma vida que pode não ter sido escolhida pela criança. Além disso, ela está exposta a riscos como comentários maldosos, comparações, cyberbullying e até o uso indevido de suas imagens”, ressalta Jessica Martani. O impacto disso pode ser profundo ao longo da vida da criança, especialmente em sua adolescência e vida adulta.
Privacidade perdida: uma infância sob constante vigilância
A pediatra Fabiana Soares também aborda outro aspecto importante: a perda precoce da privacidade. “A infância é o momento de errar, de fazer birra e de brincar sem plateia. Quando a criança se vê constantemente sob os holofotes, ela pode começar a sentir a pressão de estar sempre bem, sempre agradando”, destaca Fabiana, destacando que a criança perde a possibilidade de desenvolver suas emoções sem uma audiência constante.
Além disso, essa constante exposição pode afetar a autoestima da criança, pois ela pode começar a associar sua identidade ao que é mostrado nas redes sociais, sem entender o impacto que a opinião pública tem sobre seu processo de formação como indivíduo.
Estabelecendo limites: como proteger a infância em um mundo digital
A chave para um equilíbrio saudável entre exposição e proteção está nos limites claros. “Proteger não significa afastar completamente a criança do público, mas garantir que ela tenha espaços sem câmeras, sem cobrança, e sem a necessidade de performar para os outros.” Esse é o ponto de vista de Fabiana Soares, que reforça a necessidade de os pais e cuidadores filtrarem o que será mostrado, respeitando quando a criança não quiser aparecer e, sobretudo, preservando momentos de fragilidade emocional.
A proteção não é sobre impedir a criança de crescer em um mundo digital, mas sobre encontrar um ponto de equilíbrio saudável entre sua vida privada e sua presença nas redes sociais.
O equilíbrio entre o mundo real e virtual: a importância de uma infância protegida
Jessica Martani complementa que é fundamental manter o equilíbrio entre o mundo real e o virtual. A infância deve ser marcada por experiências reais, interações com outras crianças e a liberdade de explorar a vida fora das redes sociais. “Brincar, conviver com outras crianças, ter hobbies e experiências fora da tela ajudam a construir autoestima e segurança emocional. A fama pode passar, mas os efeitos de uma infância exposta ficam”, conclui.
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