• Muito antes da agressão física

    Violência psicológica em relacionamentos é mais difícil de detectar, mas também deixa sequelas
    Violência psicológica em relacionamentos é mais difícil de detectar, mas também deixa sequelas

    Quando começou a namorar aos 18 anos, Maria Bela (nome fictício), acreditava estar vivendo uma história de amor. O namorado, nove anos mais velho, era atencioso, aparecia com flores, presentes e surpresas. Com o tempo, porém, o que parecia cuidado foi se transformando em controle.

    “Ele era carinhoso, mas aos poucos começou a opinar sobre tudo na minha vida: a roupa que eu usava, as amigas com quem eu saía, os lugares que eu frequentava”, relembra.

    Para evitar conflitos, ela começou a ceder às exigências do namorado. Pequenas mudanças foram se acumulando até alterar completamente sua rotina. “Quando ele dizia que uma roupa não era adequada ou que certa amizade não era boa para mim, eu acabava cedendo. Em troca vinham os mimos, os presentinhos, as mensagens dizendo que me amava. Sem perceber, fui deixando de ser quem eu era para não contrariá-lo”, conta.

    Hoje, aos 21 anos, após três anos de relacionamento, Marai Bela diz que percebe como sua vida foi sendo gradualmente limitada. As saídas com amigas se tornaram raras e a preocupação com a reação do namorado passou a fazer parte do dia a dia.

    “Eu quase não saio mais com minhas amigas e sempre fico com medo da reação dele quando faço algo que ele não gosta. Já ouvi palavras que me machucaram muito e, às vezes, alguns gestos dele me deixam com medo, me fazem sentir pequena e vulnerável. O que mais dói é perceber que fui me afastando de todo mundo para manter esse relacionamento”, desabafa.

    Segundo especialistas, histórias como esta revelam como relações abusivas podem começar de forma silenciosa, muitas vezes disfarçadas de cuidado ou ciúme. A psicóloga da Hapvida, Karolayne Oliveira, explica que os primeiros sinais de violência nem sempre envolvem agressão física. “O primeiro sinal de que a mulher está vivendo uma situação de violência, mesmo que não haja agressão física, é quando ela começa a se questionar se o parceiro vai ou não gostar do que ela faça ou deixe de fazer”, explica.

    Esse tipo de comportamento pode provocar mudanças profundas na forma como a mulher se relaciona com o mundo ao redor. “Ela começa a evitar sair, falar com amigos, passa a se isolar e começa a questionar os seus próprios comportamentos. Em vez de considerar a sua própria visão de mundo, passa a avaliar se algo é adequado ou não na opinião do companheiro”, afirma.

    DANOS GRAVES

    De acordo com a especialista, a violência psicológica pode provocar danos emocionais tão graves quanto a agressão física. Além do isolamento social, o controle constante pode provocar ansiedade, insegurança e perda da autoestima.

    “Não precisa haver agressão física para que um relacionamento seja considerado abusivo. A agressão psicológica afeta tanto quanto a física e acaba gerando esses comportamentos de isolamento”, ressalta.

    Os dados mostram que a violência contra a mulher ainda é um desafio no Maranhão. Em 2025, o estado registrou 50 casos de feminicídio, uma redução de cerca de 27% em comparação aos 69 casos contabilizados em 2024, segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-MA). Mesmo com a queda, os registros de violência continuam elevados. A Ouvidoria Estadual da Mulher contabilizou 2.051 denúncias entre junho e dezembro de 2025. No mesmo período, o Maranhão registrou mais de 26 mil pedidos de medidas protetivas de urgência.

    Para especialistas, identificar os sinais iniciais de controle e violência psicológica é essencial para interromper ciclos de abuso antes que eles evoluam para situações ainda mais graves. Nesse contexto, buscar apoio profissional pode ser o ponto essencial para romper o ciclo de violência. “Às vezes, é necessário ter a ajuda de um psicólogo para que essa mulher volte a sustentar suas opiniões e seu ponto de vista, mesmo diante da contrariedade do parceiro”, conclui

    CANAL DE DENUNCIA

    Para contribuir de forma efetiva no combate a esse tipo de situação, a Hapvida mantém, em parceria com o Instituto Justiça de Saia, por meio do Projeto Justiceiras, o Canal Delas: um sistema sigiloso e seguro para denúncias e acolhimento de vítimas. Desde 2022, o serviço já registrou mais de 360 ocorrências, que resultaram em atendimentos mais aprofundados a pelo menos 111 mulheres em situação de violência.

    “Mais do que um canal de denúncia, trata-se de uma rede multidisciplinar que orienta sobre medidas protetivas, registro de ocorrência, acesso a serviços públicos e caminhos para a reconstrução da autonomia e da dignidade dessas mulheres”, afirma Flavio Freire, head de Sustentabilidade e Impacto Social na Hapvida.

    A ferramenta, inicialmente voltada às colaboradoras da empresa, foi expandida para beneficiárias e para o público em geral. “Esse é um tema especialmente relevante para nós, porque somos uma companhia formada majoritariamente por mulheres. Atualmente, cerca de 75% do nosso quadro de colaboradores é composto por mulheres, o que representa mais de 58 mil profissionais que contribuem diariamente para a construção da história da empresa”, ressalta o executivo.

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