
O real brasileiro iniciou 2026 em forte valorização e registrou o melhor desempenho global frente ao dólar no primeiro pregão do ano. Na sexta-feira (2), a moeda brasileira avançou 1,19% contra a divisa norte-americana, em um movimento que surpreendeu parte do mercado e contrastou com o cenário internacional, marcado pela valorização do dólar frente a moedas fortes.
Ao fim da sessão, o dólar comercial encerrou cotado a R$ 5,4238 na venda, refletindo um ajuste de posições típico do início de ano, após um período de baixa liquidez nos mercados internacionais em razão das festas de fim de ano.
Movimento técnico favoreceu moedas emergentes
Segundo analistas, a queda do dólar nesta primeira sessão de 2026 esteve fortemente associada a um movimento técnico de ajuste de posições por parte de investidores globais. Com o encerramento de 2025, muitos agentes reduziram exposição à moeda americana e recompuseram posições em ativos considerados mais descontados, como moedas de países emergentes.
Esse comportamento foi potencializado pelo baixo volume de negócios registrado no pregão, o que tende a amplificar oscilações. Nesse contexto, o real se destacou ao apresentar a maior valorização entre as principais moedas monitoradas por bancos e corretoras internacionais.
Desempenho contraria tendência global do dólar
O avanço do real ocorreu na contramão do desempenho global do dólar. A moeda americana apresentou valorização frente a uma cesta de moedas fortes, movimento capturado pelo índice DXY, que mede o comportamento do dólar frente a divisas como euro, iene e libra esterlina.
Essa divergência evidencia que o fortalecimento do real não esteve diretamente ligado a uma fraqueza estrutural do dólar, mas sim a fatores pontuais de fluxo, posicionamento e percepção de risco no mercado brasileiro no curto prazo.
Investidores atentos aos próximos dados econômicos
O movimento do câmbio ocorre em um momento de grande expectativa nos mercados globais. Investidores aguardam uma semana intensa de divulgação de indicadores econômicos nos Estados Unidos, que podem influenciar diretamente as decisões do Federal Reserve.
Entre os dados mais aguardados está o relatório de empregos, que será divulgado na próxima sexta-feira e costuma ser decisivo para calibrar expectativas sobre juros. Atualmente, o mercado já precifica duas possíveis reduções da taxa básica de juros ao longo de 2026, enquanto parte dos dirigentes do Fed ainda projeta apenas um corte, refletindo um cenário de divisão interna no banco central.
Dólar vem de pior desempenho anual em anos
Apesar da valorização pontual observada no início de 2026, o dólar encerrou o ano anterior com sua queda anual mais acentuada desde 2017, acumulando desvalorização superior a 9%. Esse desempenho foi influenciado por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais.
Entre eles, destaca-se a redução do diferencial de juros entre os Estados Unidos e outras economias desenvolvidas e emergentes, o que diminuiu a atratividade relativa dos ativos denominados em dólar. Além disso, persistem preocupações com a situação fiscal dos EUA, o risco de novas guerras comerciais e questionamentos sobre a independência do Fed diante de pressões políticas.
Riscos seguem no radar dos mercados
Esses fatores continuam no radar dos investidores em 2026. A saúde fiscal americana, em especial, é vista como um ponto de atenção, diante do elevado nível de endividamento e das dificuldades recorrentes de aprovação de medidas orçamentárias no Congresso dos Estados Unidos.
Outro elemento de incerteza é o impacto de possíveis tensões comerciais globais, que podem reacender movimentos de aversão ao risco ou, ao contrário, reforçar fluxos defensivos para o dólar, dependendo da magnitude e do alcance das medidas.
Avaliação de especialistas
Para especialistas do mercado cambial, o início de ano costuma ser marcado por reavaliações estratégicas. Juan Perez, diretor de negociações da Monex USA, avalia que este é um momento-chave para leitura dos dados econômicos.
“Será um momento para fazer uma avaliação aprofundada. Não teremos reunião do Fed até o final do mês e ainda não há consenso”, afirmou.
Segundo Perez, a leitura dos indicadores recentes também foi prejudicada por eventos atípicos nos Estados Unidos.
“A última paralisação do governo dos EUA foi sem precedentes e inconcebivelmente longa, o que realmente afetou a forma como os dados foram obtidos, interpretados e até mesmo a precisão das informações disponíveis”, completou.
Real se beneficia de cenário doméstico pontual
No Brasil, o desempenho do real também reflete fatores internos, como o posicionamento mais cauteloso de investidores no fim de 2025 e a recomposição de carteiras no início do novo ano. Além disso, o patamar ainda elevado da taxa de juros doméstica segue oferecendo atratividade ao chamado carry trade, estratégia em que investidores tomam recursos em países de juros baixos e aplicam em economias com retornos mais elevados.
Esse movimento ajuda a explicar por que o real conseguiu se descolar temporariamente do cenário externo, mesmo em um ambiente global ainda marcado por incertezas.
Expectativa para os próximos dias
Analistas ponderam, no entanto, que o desempenho positivo do real no primeiro pregão de 2026 não garante tendência sustentada. A continuidade da valorização dependerá, sobretudo, do comportamento dos mercados internacionais, da sinalização do Federal Reserve e da percepção de risco fiscal e político no Brasil.
A semana promete ser decisiva para definir se o movimento observado nesta sexta-feira foi apenas um ajuste pontual ou o início de um ciclo mais consistente de fortalecimento da moeda brasileira.
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