
BACABAL – Um novo detalhe revelado pelas investigações ajuda a reconstruir o caminho percorrido pelas crianças desaparecidas na zona rural de Bacabal e lança luz sobre como elas podem ter se perdido na mata. Segundo relato de Anderson Kauã, o menino de 8 anos resgatado no último dia 7, o grupo seguia em direção a um pé de maracujá quando acabou entrando em uma área de vegetação densa, sem a companhia de nenhum adulto.
As informações foram divulgadas pelo delegado-adjunto de Apoio Operacional, Éderson Martins, e passaram a integrar oficialmente as linhas de investigação conduzidas pelas forças de segurança.
De acordo com o depoimento, as crianças caminharam inicialmente por uma trilha conhecida da comunidade. Durante o trajeto, Anderson teria encontrado um tio, que o orientou a retornar para casa. Com receio de ser visto e impedido de continuar, o menino decidiu entrar na mata pelo lado oposto, acreditando que conseguiria “dar a volta” e chegar ao local desejado sem ser percebido. Foi a partir dessa decisão que o grupo acabou se perdendo.
Crianças estavam sozinhas durante todo o trajeto
Um ponto considerado crucial pelas equipes de investigação é o fato de que, segundo Anderson Kauã, em nenhum momento as crianças estavam acompanhadas por um adulto durante a caminhada pela mata. O relato reforça a hipótese de que o desaparecimento foi acidental, resultado de uma sucessão de decisões típicas da infância, sem a real noção dos riscos envolvidos.
Ainda conforme o depoimento, ao longo do caminho, o grupo não encontrou frutas nem alimentos para se manter. A ausência de recursos naturais comestíveis pode ter contribuído para o cansaço, desorientação e agravamento da situação enfrentada pelas crianças.
Atualmente, Anderson segue internado e é acompanhado por uma equipe multiprofissional, incluindo psicóloga, além do Instituto de Perícias para Crianças e Adolescentes (IPCA), que realiza a escuta especializada conforme determina a Lei da Escuta Protegida.
Passagem pela “casa caída” foi confirmada por cães farejadores
Outro ponto importante do relato é a passagem das crianças por um abrigo improvisado conhecido como “casa caída”. Anderson afirmou que o grupo esteve no local durante o percurso. A informação foi confirmada posteriormente pelo trabalho de cães farejadores, que identificaram o odor das crianças na estrutura, validando o depoimento do menino.
A chamada casa caída é um abrigo simples, construído com barro, troncos de madeira e cobertura de palha. Ela fica no povoado São Raimundo, na zona rural de Bacabal, às margens do rio Mearim. No interior do local, as equipes encontraram objetos como colchão, botas e um banco, o que indica que o espaço pode ser usado ocasionalmente por pescadores ou moradores da região.
Segundo o Corpo de Bombeiros do Maranhão, a casa está a cerca de 3,5 quilômetros em linha reta da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, onde as crianças desapareceram. No entanto, considerando os obstáculos naturais — como mata fechada, trilhas irregulares, lagoas e áreas alagadas —, o trajeto percorrido pode chegar a aproximadamente 12 quilômetros.
Avó percebeu o desaparecimento ainda durante a tarde
A avó das crianças, Francisca Cardoso, relatou que percebeu a ausência dos netos ainda no período da tarde do dia do desaparecimento. Segundo ela, chamou pelas crianças diversas vezes, mas não obteve resposta.
“Chamei e ninguém respondeu”, disse, emocionada, ao lembrar do momento em que começou a perceber que algo estava errado. Desde então, a família vive dias de angústia, acompanhando cada nova etapa das buscas.
Área de buscas foi ampliada e dividida em quadrantes

Com o passar dos dias, a operação de busca foi ampliada e ganhou organização ainda mais detalhada. A área, superior a quatro quilômetros quadrados, foi dividida em 45 quadrantes. Cada equipe é responsável por um setor específico, com monitoramento em tempo real por meio de aplicativos de geolocalização instalados nos celulares dos agentes.
Esse sistema permite registrar com precisão todos os pontos já percorridos, evitando sobreposição de esforços e garantindo que nenhuma área deixe de ser verificada.
As buscas pelas crianças Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4 anos, chegaram ao 16º dia nesta segunda-feira (19). As equipes enfrentaram dificuldades adicionais após chuvas registradas na região, que alteraram o terreno e elevaram o nível de rios e lagoas.
Tecnologia subaquática reforça operações no rio e lago
Além das buscas terrestres, as operações avançaram para áreas aquáticas. A Marinha do Brasil incorporou à força-tarefa o uso do side scan sonar, equipamento de alta tecnologia capaz de gerar imagens detalhadas do fundo de rios e lagos, mesmo em águas turvas.
O sonar está sendo utilizado tanto no rio Mearim quanto em um lago da região, com apoio de lancha voadeira e motoaquática. Para aumentar a eficiência da operação, a Marinha solicitou a redução do número de embarcações civis circulando na área durante o período das buscas.
De acordo com a Capitania dos Portos do Maranhão, o equipamento é capaz de identificar:
- Objetos submersos, como galhos, embarcações ou detritos;
- Alterações no relevo do fundo do rio, como buracos ou elevações;
- Substâncias na água, como óleo ou resíduos;
- Diferenças na visibilidade subaquática, mesmo em ambientes de alta turbidez.
“A gente consegue ver a coluna d’água e o leito com uma imagem muito nítida, independentemente se a água é clara ou escura”, explicou o capitão Simões Júnior, da Capitania dos Portos.
O side scan sonar já foi utilizado em outras operações de grande porte, como nas buscas após o desabamento da Ponte Juscelino Kubitschek (Ponte JK), entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA).
Investigações seguem abertas
As informações fornecidas por Anderson Kauã estão sendo analisadas em conjunto com dados técnicos, laudos periciais e os resultados das buscas em campo. A Polícia Civil reforça que nenhuma hipótese foi descartada até o momento, embora os elementos levantados indiquem que o desaparecimento ocorreu de forma acidental, a partir da entrada das crianças em uma área de mata sem orientação adequada.
As operações seguem de forma ininterrupta, com a expectativa de que novas pistas possam surgir à medida que a área de buscas é ampliada.
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