• Pastor Séo Fernandes questiona divisão entre música gospel e secular e reacende debate no meio evangélico

     

    Pastor Séo Fernandes durante entrevista ao Maquir Podcast, onde falou sobre fé e música.
    Pastor Séo Fernandes durante entrevista ao Maquir Podcast, onde falou sobre fé e música.

    SALVADOR (BA) — O pastor e cantor Séo Fernandes colocou fogo em um dos debates mais sensíveis do meio evangélico brasileiro: a separação rígida entre música gospel e música secular. Durante participação no Maquir Podcast, o artista afirmou que a demonização automática da música não religiosa “não encontra respaldo bíblico” e pode, inclusive, produzir um efeito oposto ao propósito cristão.

    A declaração rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais, dividindo opiniões entre líderes religiosos, músicos e fiéis. Para alguns, trata-se de coragem teológica. Para outros, de flexibilização perigosa.

    Mas afinal: existe base bíblica para classificar toda música secular como espiritual ou moralmente inferior?

    “Atribuir tudo ao diabo não é bíblico”, diz pastor

    Durante a entrevista, Séo argumentou que parte do discurso evangélico contemporâneo cria uma espécie de “teologia do medo”, na qual o mal assume protagonismo excessivo. Segundo ele, quando toda expressão artística externa à igreja é rotulada como demoníaca, a comunidade cristã acaba reforçando mais a atuação do inimigo do que a soberania de Deus.

    Ele citou o capítulo 12 da Carta aos Romanos como exemplo de texto frequentemente usado para justificar isolamento cultural. Na avaliação do pastor, o convite bíblico é ao discernimento, não à rejeição automática.

    A fala toca em um ponto central: o cristianismo deve se proteger da cultura ou dialogar com ela?

    Influência da MPB e crítica ao “rock britânico” no louvor

    Outro trecho que chamou atenção foi a crítica à padronização musical no meio gospel. Séo destacou que sua formação musical foi influenciada por nomes como Djavan, Caetano Veloso e Gilberto Gil, defendendo que a riqueza rítmica brasileira não pode ser descartada pela igreja.

    Para ele, parte do louvor contemporâneo adotou excessivamente referências do rock britânico e da música norte-americana, deixando de lado a identidade cultural nacional.

    A crítica não é apenas estética. Ela envolve identidade. O evangelicalismo brasileiro, que cresce nas periferias e no interior do país, deveria reproduzir modelos estrangeiros ou construir uma expressão própria?

    Discernimento não é relativismo

    Séo fez questão de diferenciar liberdade cultural de relativização moral. Casado há 15 anos e defensor dos valores familiares, afirmou que não consome conteúdos que exaltam práticas incompatíveis com sua fé.

    No entanto, alertou que isso não autoriza classificar toda produção artística externa como maligna. Para ele, o critério deve ser coerência, não rótulo.

    Essa distinção é relevante. No campo teológico, discernimento implica avaliação crítica baseada em princípios, enquanto demonização automática elimina a análise.

    Conversão não é apagamento cultural

    Irmão de Saulo Fernandes, um dos nomes mais conhecidos do axé, Séo afirmou que sua conversão não significou negar suas raízes culturais. Pelo contrário, ele defende que a fé cristã deve dialogar com a cultura sem se submeter a ela — mas também sem rejeitá-la por medo.

    Essa perspectiva confronta uma tradição histórica do evangelicalismo brasileiro que, em determinados períodos, associou cultura popular a mundanismo.

    O debate não é novo, mas ganha nova força em um contexto digital, onde fronteiras culturais são cada vez mais fluidas.

    O que está em jogo: isolamento ou engajamento?

    As declarações do pastor revelam uma tensão crescente dentro do evangelicalismo: de um lado, a defesa de uma liturgia mais rígida e separada da cultura popular; de outro, a proposta de presença cristã ativa e consciente no ambiente cultural.

    Historicamente, movimentos de avivamento alternaram entre fases de isolamento e fases de diálogo cultural. No Brasil, essa disputa aparece hoje na música, na moda, no cinema e nas redes sociais.

    A pergunta que ecoa é estratégica: a igreja perde relevância quando se distancia da cultura? Ou compromete sua identidade quando se aproxima demais?

    Repercussão nas redes

    Após a entrevista, trechos do podcast circularam amplamente em perfis evangélicos. Alguns usuários elogiaram a postura equilibrada. Outros acusaram o pastor de “flexibilizar princípios”.

    Esse tipo de debate demonstra que o público cristão está cada vez mais atento às discussões sobre identidade cultural e teológica. A era digital amplifica declarações e transforma opiniões em movimentos.

    Um debate que não deve acabar tão cedo

    O posicionamento de Séo Fernandes não encerra a discussão — ele a intensifica. Ao questionar a demonização automática da música secular, o pastor convida a igreja a refletir sobre seus próprios critérios de julgamento cultural.

    Não se trata apenas de música. Trata-se de como a fé cristã se posiciona diante da arte, da cultura e da sociedade.

    Entre isolamento religioso e engajamento consciente, o evangelicalismo brasileiro parece viver um momento decisivo.

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