• Dra. Acácia Jordão alerta para avanços que podem reduzir risco de cegueira em doenças da retina

    Novas terapias oftalmológicas prometem reduzir aplicações intraoculares e preservar a visão de pacientes com doenças da retina.
    Novas terapias oftalmológicas prometem reduzir aplicações intraoculares e preservar a visão de pacientes com doenças da retina.

     A medicina ocular vive uma transformação histórica. Doenças que antes exigiam aplicações frequentes dentro dos olhos, acompanhamentos constantes agora começam a ganhar novas alternativas terapêuticas mais duradouras e eficazes. Os avanços da farmacoterapia ocular estão mudando o cenário da oftalmologia moderna, principalmente no tratamento da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI), do Edema Macular Diabético (EMD) e de outras doenças vasculares da retina.

    As chamadas terapias intravítreas — medicamentos aplicados diretamente dentro do olho — evoluíram significativamente nos últimos anos. Além de ampliar o controle da doença, as novas drogas prometem reduzir o número de aplicações necessárias ao longo do tratamento, um dos maiores desafios enfrentados por pacientes e médicos.

    Segundo a médica oftalmologista Dra. Acácia Jordão, um dos principais problemas enfrentados atualmente é justamente a dificuldade de manter a continuidade do tratamento tradicional. “Esses pacientes, muitas vezes idosos ou com doenças crônicas, acabam enfrentando desgaste físico, emocional e financeiro por causa da necessidade de consultas e aplicações frequentes. Isso faz com que muitos abandonem o tratamento ou não consigam seguir corretamente os intervalos indicados”, explica.

    A consequência pode ser grave. Estudos internacionais já demonstram que o chamado “subtratamento” é uma das principais causas de piora visual irreversível em pacientes com doenças retinianas. Em muitos casos, quando o tratamento é interrompido, ocorre novamente o vazamento de líquidos e sangue na retina, provocando danos permanentes à visão central.

    Medicamentos mais inteligentes e duradouros

    Entre os avanços que mais chamam atenção está o Faricimabe, considerado um dos medicamentos mais inovadores da nova geração. Diferente das terapias tradicionais, ele atua em dois mecanismos da doença ao mesmo tempo: o VEGF-A, responsável pela formação de vasos anormais e vazamentos, e a Angiopoietina-2 (Ang-2), ligada à inflamação e instabilidade vascular.

    Na prática, isso significa um controle mais duradouro da doença e maior estabilidade da retina. “O grande diferencial dessas novas moléculas é justamente aumentar a durabilidade do efeito terapêutico. Isso reduz o número de injeções necessárias e melhora muito a adesão do paciente ao tratamento”, destaca Dra. Acácia Jordão.

    Outro destaque é o Aflibercepte 8 mg, uma versão de alta concentração de um medicamento já conhecido na oftalmologia. A proposta é aumentar a quantidade de moléculas ativas dentro do olho sem elevar o volume da aplicação, criando um efeito de “reservatório” capaz de prolongar a ação da droga por períodos maiores.

    Com isso, alguns pacientes conseguem ampliar os intervalos entre as aplicações para até quatro meses, algo considerado impensável há poucos anos.

    Terapia gênica e implantes: o futuro já começou

    Além dos medicamentos convencionais, a oftalmologia também avança para tecnologias ainda mais sofisticadas. Entre elas estão os implantes intravítreos de liberação contínua, que funcionam como pequenos dispositivos capazes de liberar o medicamento lentamente dentro do olho durante meses.

    Outra fronteira promissora é a terapia gênica ocular. A técnica utiliza vetores virais modificados para transformar células da retina em verdadeiras “fábricas” de substâncias terapêuticas, reduzindo drasticamente a necessidade de aplicações repetidas.

    Avanço histórico também para a DMRI seca

    O avanço não se limita apenas à forma úmida da degeneração macular. Pela primeira vez, medicamentos desenvolvidos para a DMRI seca — especialmente nos casos de atrofia geográfica — começam a apresentar resultados concretos na desaceleração da progressão da doença.

    Até pouco tempo atrás, essa condição era considerada praticamente sem opção terapêutica eficaz.

    As novas drogas atuam no chamado sistema complemento, mecanismo inflamatório ligado à destruição progressiva das células da retina. Embora não recuperem a visão já perdida, os tratamentos conseguem retardar o avanço da degeneração, preservando a autonomia do paciente por mais tempo.

    Desafio agora é ampliar o acesso

    Apesar dos avanços, especialistas alertam que ainda existem obstáculos importantes relacionados ao custo e ao acesso às novas terapias. Muitos desses tratamentos possuem alto valor e ainda enfrentam limitações regulatórias e de disponibilidade no Brasil.

    Mesmo assim, o cenário é visto com otimismo pela comunidade médica.

    “A oftalmologia vive hoje um dos momentos mais inovadores da história. Estamos caminhando para tratamentos cada vez mais personalizados, mais duradouros e menos invasivos. Isso representa esperança real para milhares de pacientes que convivem com doenças que antes levavam inevitavelmente à perda visual”, conclui Dra. Acácia Jordão.

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